Há um amigo que, desde a adolescência, tinha um único sonho: ser médico. As probabilidades não estavam a seu favor faltavam-lhe recursos, contactos, tudo o que normalmente ajuda nesse percurso. Mas perseverou. Dez anos mais tarde do que os colegas de turma, conseguiu.
Anos depois, ao reencontrá-lo, a pergunta óbvia era: como estás, depois de tudo o que conquistaste? A resposta não teve rodeios: "Que trabalho horrível."
A conversa continuou nesse tom durante minutos. O cansaço e a pressão tinham desgastado, quase por completo, o entusiasmo que o levou até ali. A mesma pessoa que lutou durante uma década para chegar àquele objectivo já não reconhecia, com a mesma intensidade, o valor de o ter alcançado.
Isto não é um caso isolado. É, na verdade, um padrão psicológico com nome próprio e que tem implicações directas na forma como planeamos a nossa carreira.
A ilusão de que já somos quem vamos ser para sempre
Os psicólogos chamam a este fenómeno "ilusão do fim da história". A ideia é simples, mas surpreendentemente poderosa: todos reconhecemos, sem qualquer dificuldade, o quanto já mudámos no passado os gostos, os valores, as prioridades que tínhamos há dez anos e que hoje parecem distantes. Mas, ao mesmo tempo, subestimamos sistematicamente o quanto ainda vamos mudar no futuro.
É como se, silenciosamente, todos acreditássemos: "Sim, mudei muito até aqui. Mas agora, finalmente, sou quem vou ser para o resto da vida."
Investigação em psicologia mostra que este padrão se repete em pessoas de todas as idades dos dezoito aos setenta anos. Jovens adultos gastam dinheiro a remover tatuagens que fizeram na adolescência, convictos na altura de que seriam definitivas. Pessoas de meia-idade divorciam-se de quem, poucos anos antes, tinham a certeza de querer para sempre. Idosos gastam, sem hesitar, aquilo que passaram décadas a poupar com esforço. Em cada fase da vida, tomamos decisões duradouras a pensar na pessoa que somos naquele momento sem perceber que a pessoa que vamos ser daqui a uns anos pode discordar profundamente dessas escolhas.
O que isto significa para a tua carreira
Aplicado ao planeamento profissional, este padrão tem consequências práticas relevantes.
Uma criança de cinco anos sonha em conduzir um tractor. Cresce, e decide que quer ser advogada parece-lhe, finalmente, o plano certo. Mas, já a trabalhar, percebe que os horários intermináveis a afastam da família mais do que imaginava. Talvez aceite, então, um trabalho com menos prestígio, mas mais flexível. Mais tarde, talvez conclua que ficar em casa a cuidar dos filhos é, afinal, a escolha que realmente lhe faz sentido.
Cada uma destas decisões pareceu, no momento em que foi tomada, a decisão definitiva. E cada uma delas foi, mais tarde, revista não porque a pessoa tenha errado, mas porque a pessoa mudou.
Isto explica também porque é que uma parte significativa das pessoas com formação superior acaba a trabalhar em áreas sem relação directa com o que estudou. Não é, na maioria dos casos, sinal de mau planeamento inicial. É, simplesmente, o resultado natural de sermos pessoas diferentes ao longo do tempo.
Porque planear a longo prazo é mais difícil do que parece
Isto coloca um problema real a quem quer planear a carreira ou a vida profissional a muitos anos de distância: como comprometer-se com um caminho de longo prazo, se a própria pessoa que o percorre está destinada a mudar de prioridades pelo caminho?
Não existe uma resposta fácil. Dizer a uma criança de cinco anos que devia estudar Direito em vez de sonhar em conduzir um tractor não vai convencê-la de nada nem faria sentido tentar. E o mesmo se aplica, ainda que de forma mais subtil, aos planos que fazemos aos vinte, trinta ou quarenta anos.
O que este padrão sugere não é que devamos desistir de planear planear continua a ser essencial. Sugere, antes, que vale a pena planear com a consciência explícita de que os objectivos actuais não são permanentes, e que um plano demasiado rígido, construído sobre a certeza de "isto é o que vou sempre querer", carrega um risco que raramente é considerado: o de a pessoa que o cumpre já não ser, emocionalmente, a mesma que o desenhou.
O equilíbrio entre comprometer-se e manter flexibilidade
Há dois extremos a evitar aqui, e ambos têm um custo real.
No primeiro extremo estão as decisões de carreira demasiado rígidas comprometer-se, sem margem para ajuste, com um único caminho profissional para o resto da vida, mesmo quando os sinais de desgaste ou de mudança de prioridades já são evidentes. Este extremo arrisca chegar, como no exemplo com que começámos este artigo, a um objectivo profundamente desejado numa fase da vida, e já não conseguir reconhecer o seu valor na fase seguinte.
No segundo extremo está a indecisão permanente nunca se comprometer verdadeiramente com nenhum caminho profissional, por medo de que os objectivos venham a mudar. Este extremo tem o seu próprio risco: o de nunca construir nada com profundidade suficiente para valer a pena, precisamente por recusar qualquer compromisso de longo prazo.
O equilíbrio razoável está algures entre os dois: comprometer-se o suficiente para progredir e construir algo de valor, mantendo, ao mesmo tempo, espaço consciente para rever esse compromisso à medida que a vida e tu mudam.
Como aplicar isto à tua vida
- Ao tomares uma decisão de carreira com grande peso a longo prazo, pergunta-te: estou a construir algo com espaço para evoluir, ou estou a comprometer-me de forma tão rígida que não haverá volta atrás se os meus objectivos mudarem?
- Revê periodicamente os teus objectivos profissionais não apenas quando algo corre mal, mas como hábito regular. Aquilo que fazia sentido há cinco anos pode já não reflectir quem és hoje, e está tudo bem que assim seja.
- Evita julgar decisões passadas com os olhos de quem és agora. Uma escolha profissional que fizeste anos atrás fez sentido para a pessoa que eras naquele momento tal como as decisões que tomas hoje farão sentido, ou não, para a pessoa que ainda vais ser.
Perguntas frequentes
1. Isto significa que não vale a pena planear a carreira a longo prazo? Não. Significa que vale a pena planear com flexibilidade incorporada, em vez de assumir que os objectivos actuais serão permanentes. Um plano de carreira pode e deve ter direcção, mas beneficia de espaço para ser revisto ao longo do tempo.
2. Como posso saber se uma decisão de carreira é demasiado rígida? Uma boa pergunta é: se os meus objectivos mudarem daqui a alguns anos, esta decisão ainda me permite ajustar o rumo, ou fecha-me completamente outras opções? Decisões que eliminam por completo a flexibilidade futura merecem uma reflexão mais cuidadosa.
3. Porque é que subestimamos tanto o quanto ainda vamos mudar? Porque é mais fácil olhar para trás e reconhecer mudanças já ocorridas do que imaginar, de forma concreta, como seremos diferentes no futuro. A investigação em psicologia mostra que esta tendência existe em praticamente todas as idades, não apenas nos mais jovens.
4. Isto aplica-se apenas a decisões de carreira, ou também a outras áreas da vida? O mesmo padrão psicológico influencia decisões em várias áreas relações, estilo de vida, planeamento financeiro. Sempre que uma decisão assume que os objectivos actuais serão permanentes, vale a pena ter esta ideia em mente.
5. Como posso equilibrar comprometer-me com uma carreira e manter-me flexível ao mesmo tempo? Uma abordagem prática é comprometeres-te o suficiente para avançar e construir algo de valor, enquanto revês periodicamente se esse caminho continua alinhado com quem és em vez de tratares a decisão inicial como definitiva e imutável.
Conclusão
Da próxima vez que fores tomar uma grande decisão de carreira, vale a pena lembrar-te do amigo que passou dez anos a lutar para se tornar médico e que, ao chegar lá, já era uma pessoa diferente daquela que sonhou esse objectivo.
Isto não significa que não devas perseguir os teus objectivos actuais com empenho. Significa apenas que vale a pena perseguir esses objectivos com espaço para os reavaliar porque a pessoa que os alcança pode não ser exactamente a mesma que os desejou.
Nada é permanente, exceto a mudança.