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Mortimer Adler.
O Que a História de Bill Gates Não Te Conta Sobre o Sucesso
Histórias de Sucesso

O Que a História de Bill Gates Não Te Conta Sobre o Sucesso

  • Fortunece •
  • 17 de Out de 2026 •
  • 6 min de leitura •

Em 1968, havia cerca de 303 milhões de crianças em idade escolar no mundo. Apenas trezentas delas trezentas, num universo de trezentos milhões frequentavam uma escola secundária nos arredores de Seattle que tinha acesso a um computador ligado a um terminal universitário. Isto, numa altura em que a maioria das universidades nem sequer tinha equipamento assim.

Uma dessas trezentas crianças chamava-se Bill Gates.

A história costuma ser contada como um exemplo de génio precoce e trabalho árduo e, sem dúvida, houve as duas coisas. Mas há uma parte da história que raramente é contada com o mesmo destaque: Bill Gates teve uma sorte de aproximadamente um em um milhão.

O amigo que tinha o mesmo talento

Bill Gates não estava sozinho naquela escola. Ao seu lado, na mesma turma, havia outro rapaz igualmente talentoso, igualmente obcecado por computadores, igualmente ambicioso: Kent Evans.

Segundo o próprio Gates, Evans era o melhor aluno da turma. Os dois passavam horas ao telefone a planear o futuro que empresa poderiam criar, que impacto poderiam ter. Quando a escola precisou de um programa complexo para organizar os horários de centenas de alunos, foram Gates e Evans, ainda adolescentes, que o construíram. Havia, nas palavras do próprio Gates, uma certeza silenciosa entre os dois: fariam algo grande juntos.

Kent Evans nunca chegou a terminar o liceu. Morreu num acidente durante uma escalada em montanha, antes de qualquer oportunidade de pôr em prática os planos que tinha com Gates.

A probabilidade de um estudante do secundário morrer numa actividade de montanhismo nos Estados Unidos é, também ela, de aproximadamente uma em um milhão.

A mesma força, duas direcções opostas

Aqui está o ponto central: Gates experimentou uma sorte extraordinária. Evans experimentou um risco extraordinário. Foi a mesma ordem de grandeza de acaso apenas a trabalhar em direcções completamente opostas.

Isto não diminui o mérito de Gates. Ele foi, por todos os relatos, extraordinariamente dedicado, e teve uma visão sobre computadores que muitos profissionais mais experientes da altura não tinham. Mas seria incompleto e desonesto contar a história do seu sucesso sem mencionar que ele teve acesso a uma oportunidade que praticamente mais ninguém no mundo teve na mesma altura.

Sorte e risco são, neste sentido, como dois irmãos. Ambos representam a mesma verdade: nenhum resultado na vida sucesso ou fracasso é explicado apenas pelo esforço individual. O mundo tem demasiadas peças em movimento, demasiadas pessoas, demasiadas circunstâncias fora do nosso controlo, para que 100% de qualquer resultado seja atribuível a 100% das decisões de uma única pessoa.

Porque isto importa quando admiras (ou tentas copiar) alguém de sucesso

Esta ideia tem uma consequência prática directa, e é aqui que se torna especialmente relevante para quem gere o seu próprio dinheiro: quando vês uma história de sucesso financeiro um investidor que multiplicou o capital, um empreendedor que construiu uma fortuna é praticamente impossível, de fora, distinguir quanto desse resultado se deveu a boas decisões e quanto se deveu a circunstâncias que essa pessoa nunca controlou.

Isto não significa que o mérito não conte. Conta, e muito. Mas significa que tentar replicar exactamente a estratégia de alguém de sucesso investir nas mesmas acções, seguir o mesmo plano de negócio, copiar as mesmas decisões sem teres em conta o papel da sorte no percurso dessa pessoa, é uma forma arriscada de tomar decisões financeiras.

Há sempre, nestas histórias, um Kent Evans invisível: alguém igualmente talentoso, igualmente disciplinado, que tomou decisões semelhantes e não teve o mesmo resultado simplesmente porque o risco, o irmão menos falado da sorte, trabalhou contra essa pessoa em vez de a favor.

Nem tudo é sorte, nem tudo é mérito

É fácil, ao ler isto, ir para um de dois extremos: ou concluir que o esforço não importa nada, e tudo se resume a sorte ou defender-se dessa ideia, insistindo que o sucesso (e o fracasso) de alguém se explica inteiramente pelas suas próprias decisões.

Nenhum dos extremos é realista. A forma mais honesta de olhar para qualquer história de sucesso financeiro a tua ou a de outra pessoa é reconhecer que ela é, quase sempre, uma combinação de decisões e de circunstâncias. E que, precisamente por seres incapaz de separar com precisão uma coisa da outra, faz sentido teres alguma humildade tanto ao admirar o sucesso alheio como ao avaliar os teus próprios resultados, bons ou maus.

Como aplicar isto à tua vida

  • Antes de tentares replicar exactamente a estratégia financeira de alguém que admiras, pergunta-te: que circunstâncias específicas essa pessoa teve, que eu talvez não tenha? A estratégia pode ser válida, mas o contexto raramente é idêntico.
  • Quando avaliares os teus próprios resultados financeiros bons ou maus, reserva espaço para o papel da sorte e do risco, em vez de atribuíres tudo exclusivamente às tuas decisões. Isto ajuda tanto a não te culpares em excesso quando algo corre mal, como a não sobrestimares a tua própria genialidade quando algo corre bem.
  • Ao ler ou ouvir uma história de sucesso, presta atenção às circunstâncias mencionadas de passagem a escola, a época, o contexto familiar e não apenas à narrativa central sobre esforço e talento. É frequentemente aí que está a parte da história que ninguém destaca.

Perguntas frequentes

1. Isto significa que o esforço e as boas decisões não importam para o sucesso financeiro? Não. Significa que o esforço e as boas decisões são necessários, mas raramente são suficientes por si só. A sorte e o risco factores fora do controlo de qualquer pessoa também desempenham um papel real, mesmo que seja mais confortável ignorá-lo.

2. Como posso saber se o sucesso de alguém que admiro se deveu a mérito ou a sorte? Na maioria dos casos, não é possível saber com precisão e essa é precisamente a razão para ter cautela ao tentar replicar exactamente as decisões dessa pessoa. O mais seguro é adaptar princípios gerais à tua própria situação, em vez de copiar decisões específicas assumindo que vão produzir o mesmo resultado.

3. Isto aplica-se apenas a histórias como a de Bill Gates, ou também a decisões financeiras do dia a dia? Aplica-se a qualquer avaliação de sucesso ou fracasso financeiro, incluindo o teu próprio. Um investimento que correu bem pode dever-se, em parte, a sorte de mercado; um que correu mal pode não reflectir necessariamente uma má decisão.

4. Como posso evitar cair no extremo de achar que "tudo é sorte" e desistir de me esforçar? Reconhecer o papel da sorte não é o mesmo que negar o valor do esforço. A ideia é ter em conta ambos os factores, sem exagerar em nenhuma das direcções continuares a tomar boas decisões, sabendo que elas aumentam a probabilidade de bons resultados, mesmo sem a garantir.

5. Porque é que histórias de sucesso costumam esconder o papel da sorte? Porque uma narrativa centrada exclusivamente em talento e esforço costuma ser mais simples, mais inspiradora e mais fácil de contar do que uma que reconheça o peso de factores incontroláveis. Isso não significa que seja a versão mais completa ou mais honesta da história.

Conclusão

Da próxima vez que ouvires ou leres uma história de sucesso financeiro que te inspire a agir da mesma forma, lembra-te de Kent Evans o rapaz tão talentoso quanto Bill Gates, que nunca teve a oportunidade de o provar.

Não é motivo para deixares de te esforçar ou de aprenderes com quem teve sucesso. É motivo para o fazeres com mais humildade reconhecendo que parte de qualquer resultado financeiro, para o bem e para o mal, está sempre fora do teu controlo.

Não podes prever. Podes preparar-te.

Howard Marks